Quando chegará ao fim a actual crise económica?
Todos os investidores gostariam certamente de ter uma resposta a esta questão, na medida em que a recuperação dos activos de risco (nomeadamente as acções) tende a preceder em alguns meses a retoma económica.
Infelizmente, os indicadores de actividade económica mais conhecidos, como o Produto Interno Bruto (PIB), são divulgados com um desfasamento significativo face ao período a que se reportam, o que os torna pouco úteis como base de decisões de investimento.
Importa, desta forma, acompanhar outros indicadores que permitam antecipar, com a fiabilidade possível, os pontos de inflexão na actividade económica. Parece ser o caso de um índice relativamente desconhecido, o Baltic Dry Index, que a Slate Magazine qualificou em 2003 como o «melhor indicador económico de que você nunca ouviu falar».
Este índice atingiu mínimos dos últimos 22 anos muito recentemente em Janeiro de 2012, tornando evidente a severidade da actual recessão, mas tem subido de forma notória desde então. Tratar-se-à de um fenómeno passageiro, ou estará o fim da crise mais perto do que se julga?
Todos os investidores gostariam certamente de ter uma resposta a esta questão, na medida em que a recuperação dos activos de risco (nomeadamente as acções) tende a preceder em alguns meses a retoma económica.
Infelizmente, os indicadores de actividade económica mais conhecidos, como o Produto Interno Bruto (PIB), são divulgados com um desfasamento significativo face ao período a que se reportam, o que os torna pouco úteis como base de decisões de investimento.
Importa, desta forma, acompanhar outros indicadores que permitam antecipar, com a fiabilidade possível, os pontos de inflexão na actividade económica. Parece ser o caso de um índice relativamente desconhecido, o Baltic Dry Index, que a Slate Magazine qualificou em 2003 como o «melhor indicador económico de que você nunca ouviu falar».
Este índice atingiu mínimos dos últimos 22 anos muito recentemente em Janeiro de 2012, tornando evidente a severidade da actual recessão, mas tem subido de forma notória desde então. Tratar-se-à de um fenómeno passageiro, ou estará o fim da crise mais perto do que se julga?
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| BDIY:IND - fonte Bloomberg. Gráfico a 3 anos. |
O Baltic Dry Index
Ao contrário do que se poderia pensar pela sua designação, o Baltic Dry Index nada tem a ver com os países bálticos Letónia, Lituânia e Estónia. Este indicador tem as suas origens em 1744 no café londrino Virginia and Baltick, onde se juntavam regularmente mercadores e donos de navios, e que veio a dar lugar à Baltic Exchange, bolsa com sede em Londres, integralmente detida por 550 empresas e 2000 particulares que operam no mercado de transporte marítimo.
O Baltic Dry Index foi criado em 1985 para permitir medir o preço do transporte marítimo de matérias-primas como o minério de ferro, o carvão, os cereais ou o cimento, entre outras. Todos os dias, a Baltic Exchange faz inquéritos às empresas de navegação em todo o mundo sobre o preço do transporte destas matérias-primas, em 26 rotas marítimas diferentes, como é o caso do transporte de minério de ferro da Austrália para a China. Os resultados do inquérito são publicados sob a forma de um índice com cotações diárias, o qual serve de barómetro sobre a evolução do comércio global. No cálculo do índice, são considerados o tipo e velocidade do navio, bem como a duração da viagem.
Classificação dos navios | Volume de carga (toneladas) | % da frota global | % do tráfego global |
Capesize | mais de 100.000 | 10% | 62% |
Panamax | 60.000 a 80.000 | 19% | 20% |
Supramax | 45.000 a 59.000 | 37% | 18% |
Handysize | 15.000 a 35.000 | 34% | |
| Fonte: Wikipedia Tráfego global medido pela tonelagem, multiplicada pela distância percorrida | |||
Note-se que a oferta de cargueiros é relativamente inelástica: é lenta a responder ao aumento da procura (são necessários cerca de 2 anos para construir um navio) e igualmente lenta a responder à diminuição da procura (é muito caro retirar um navio de circulação de forma temporária, ao contrário dos aviões, que são parqueados no deserto do Arizona). Desta forma, as oscilações de preço no transporte marítimo de matérias-primas são muito significativas e muito sensíveis à variação da procura.
Em Maio de 2008, o Baltic Dry Index atingiu um novo máximo desde o seu lançamento (11.793 pontos), impulsionado pela enorme procura chinesa de matérias-primas e pela escassez de navios disponíveis para a acomodar.
Apenas 7 meses mais tarde, em Dezembro de 2008, o índice atingiu um novo mínimo desde 1986, nos 663 pontos (uma quebra de 94% face ao máximo de Maio), devido ao colapso da procura, ameaçando aliás a sobrevivência de algumas das maiores empresas do sector, como veremos no segundo artigo de hoje.
Refira-se que o preço do transporte marítimo depende igualmente de factores sazonais, do preço do petróleo (que representa 25% a 33% dos custos de navegação), do bom funcionamento dos portos e de infra-estruturas como os Canais do Panamá e de Suez, de factores laborais (eventual existência de greves) e, mais recentemente, do ressurgimento da pirataria, em especial no Oceano Índico. No entanto, é a relação entre uma procura muito volátil e uma oferta muito inelástica que mais contribui para a variação dos preços.
Quais as vantagens do Baltic Dry Index como indicador económico?
O Baltic Dry Index tende a ser um dos indicadores avançados* mais puros de actividade económica, uma vez que mede a procura de transporte de matérias-primas que são precursoras da produção industrial e da construção de infra-estruturas, não sendo incluídas as mercadorias que se destinam ao consumidor final.
Em relação a outros indicadores económicos, apresenta algumas vantagens importantes:
1. O preço não está sujeito a especulação: ao contrário dos preços no mercado de matérias-primas (as quais se podem negociar sem chegar a haver entrega física da mercadoria), o preço do transporte marítimo é definido exclusivamente pelos operadores: quem tem matéria-prima para transportar e quem tem navios para transportá-la. Não é possível investir no índice.
2. Funciona em tempo real: ao contrário de indicadores como o PIB, que são publicados com um desfasamento superior a 1 mês face ao período a que reportam, este índice é publicado diariamente.
3. Não é passível de revisão ou divergência: ao contrário de indicadores como o PIB ou o desemprego, que por vezes diferem consoante a fonte, ou que são publicados primeiro como estimativa sujeita a revisão, o Baltic Dry Index é calculado por uma única entidade, com valores definitivos para o dia a que se reporta.
Qual a importância para os investidores?
Na medida em que tende a ser um indicador avançado de crescimento económico, o Baltic Dry Index pode igualmente sinalizar movimentos futuros no mercado accionista e nas taxas de juro embora, como veremos, também seja falível.
Note-se que cerca de 70% da correcção do índice desde o máximo histórico ocorreu antes de ser conhecida a falência da Lehman Brothers a 15 de Setembro de 2008 (indiciando que a contracção económica e os efeitos da crise no mercado de crédito já eram muito notórios no transporte marítimo de mercadorias), enquanto mais de metade da correcção do mercado accionista acumulada desde os seus máximos ocorreu após aquela data.
No anterior bear market, o Baltic Dry Index começou a recuperar de forma sustentada em Julho de 2002, enquanto os principais mercados accionistas apenas iniciaram esse movimento em Março de 2003, altura em que o referido índice já tinha subido cerca de 85% face aos mínimos do ano anterior.
Tal como acontece com todos os indicadores, também este não é infalível: entre Maio de 1995 e Setembro de 1996, o índice desceu 58% em pleno bull market no mercado accionista. Quem tivesse aproveitado esta “dica” para sair do mercado, teria perdido uma valorização dos mercados accionistas superior a 100% nos 4 anos subsequentes. Essa evolução resultou em grande medida de políticas de estímulo monetário, e não de um aumento significativo dos níveis de actividade económica, traduzidos em maior procura de transporte marítimo.
Em conclusão ...
Ainda não foi inventada uma “bola de cristal”, que permita antever com exactidão o que os futuro nos reserva.
Na economia e nos mercados financeiros, os chamados indicadores avançados* são os instrumentos mais utilizados para tentar antecipar tendências futuras, ainda que sejam falíveis e devam ser utilizados com as devidas cautelas.
Dentro destes, o Baltic Dry Index é um dos mais importantes, permitindo monitorizar a evolução do comércio de matérias-primas através dos respectivos preços de transporte. Este índice tende a permitir antecipar o início e o fim de recessões, ainda que não permita prever com exactidão o seu timing.
No actual ciclo de mercado, o Baltic Dry Index subiu já cerca de 150% face aos mínimos de Dezembro de 2008, enquanto os principais mercados accionistas atingiram novos mínimos no início de Março de 2009. Será a recuperação deste índice um efeito de curta duração, reflexo apenas do reabastecimento de minério de ferro por parte da China (como afirmam alguns analistas), ou será este um indício sólido de que o pior já passou? Só o tempo dirá ... mas não perca de vista este índice!
Apenas 7 meses mais tarde, em Dezembro de 2008, o índice atingiu um novo mínimo desde 1986, nos 663 pontos (uma quebra de 94% face ao máximo de Maio), devido ao colapso da procura, ameaçando aliás a sobrevivência de algumas das maiores empresas do sector, como veremos no segundo artigo de hoje.
Refira-se que o preço do transporte marítimo depende igualmente de factores sazonais, do preço do petróleo (que representa 25% a 33% dos custos de navegação), do bom funcionamento dos portos e de infra-estruturas como os Canais do Panamá e de Suez, de factores laborais (eventual existência de greves) e, mais recentemente, do ressurgimento da pirataria, em especial no Oceano Índico. No entanto, é a relação entre uma procura muito volátil e uma oferta muito inelástica que mais contribui para a variação dos preços.
Quais as vantagens do Baltic Dry Index como indicador económico?
O Baltic Dry Index tende a ser um dos indicadores avançados* mais puros de actividade económica, uma vez que mede a procura de transporte de matérias-primas que são precursoras da produção industrial e da construção de infra-estruturas, não sendo incluídas as mercadorias que se destinam ao consumidor final.
Em relação a outros indicadores económicos, apresenta algumas vantagens importantes:
1. O preço não está sujeito a especulação: ao contrário dos preços no mercado de matérias-primas (as quais se podem negociar sem chegar a haver entrega física da mercadoria), o preço do transporte marítimo é definido exclusivamente pelos operadores: quem tem matéria-prima para transportar e quem tem navios para transportá-la. Não é possível investir no índice.
2. Funciona em tempo real: ao contrário de indicadores como o PIB, que são publicados com um desfasamento superior a 1 mês face ao período a que reportam, este índice é publicado diariamente.
3. Não é passível de revisão ou divergência: ao contrário de indicadores como o PIB ou o desemprego, que por vezes diferem consoante a fonte, ou que são publicados primeiro como estimativa sujeita a revisão, o Baltic Dry Index é calculado por uma única entidade, com valores definitivos para o dia a que se reporta.
Qual a importância para os investidores?
Na medida em que tende a ser um indicador avançado de crescimento económico, o Baltic Dry Index pode igualmente sinalizar movimentos futuros no mercado accionista e nas taxas de juro embora, como veremos, também seja falível.
Note-se que cerca de 70% da correcção do índice desde o máximo histórico ocorreu antes de ser conhecida a falência da Lehman Brothers a 15 de Setembro de 2008 (indiciando que a contracção económica e os efeitos da crise no mercado de crédito já eram muito notórios no transporte marítimo de mercadorias), enquanto mais de metade da correcção do mercado accionista acumulada desde os seus máximos ocorreu após aquela data.
No anterior bear market, o Baltic Dry Index começou a recuperar de forma sustentada em Julho de 2002, enquanto os principais mercados accionistas apenas iniciaram esse movimento em Março de 2003, altura em que o referido índice já tinha subido cerca de 85% face aos mínimos do ano anterior.
Tal como acontece com todos os indicadores, também este não é infalível: entre Maio de 1995 e Setembro de 1996, o índice desceu 58% em pleno bull market no mercado accionista. Quem tivesse aproveitado esta “dica” para sair do mercado, teria perdido uma valorização dos mercados accionistas superior a 100% nos 4 anos subsequentes. Essa evolução resultou em grande medida de políticas de estímulo monetário, e não de um aumento significativo dos níveis de actividade económica, traduzidos em maior procura de transporte marítimo.
Em conclusão ...
Ainda não foi inventada uma “bola de cristal”, que permita antever com exactidão o que os futuro nos reserva.
Na economia e nos mercados financeiros, os chamados indicadores avançados* são os instrumentos mais utilizados para tentar antecipar tendências futuras, ainda que sejam falíveis e devam ser utilizados com as devidas cautelas.
Dentro destes, o Baltic Dry Index é um dos mais importantes, permitindo monitorizar a evolução do comércio de matérias-primas através dos respectivos preços de transporte. Este índice tende a permitir antecipar o início e o fim de recessões, ainda que não permita prever com exactidão o seu timing.
No actual ciclo de mercado, o Baltic Dry Index subiu já cerca de 150% face aos mínimos de Dezembro de 2008, enquanto os principais mercados accionistas atingiram novos mínimos no início de Março de 2009. Será a recuperação deste índice um efeito de curta duração, reflexo apenas do reabastecimento de minério de ferro por parte da China (como afirmam alguns analistas), ou será este um indício sólido de que o pior já passou? Só o tempo dirá ... mas não perca de vista este índice!








