Anatomia da Economia

Dissecamos a economia e mostramos a sua anatomia.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Dicas de leitura que podem render milhões nos mercados financeiros

Dicas de leitura que podem render milhões nos mercados financeiros
QUER INVESTIR NOS MERCADOS? Uma das técnicas é seguir os ensinamentos dos investidores milionários. Conheça as obras recomendadas pelos especialistas contactados pelo Diário Económico.
CORPORATE FINANCE - Nuno Vieira, 'Investor Relations' da PT. "É um livro para quem quer perceber finanças e os determinantes de valor das empresas", diz Nuno Vieira. Conhecer a gestão financeira permite avaliar a performance económico-financeira da empresa e, por acréscimo, o seu potencial bolsista.
ANÁLISE FINANCEIRA - Pedro Pintassilgo, F&C Portugal. O livro do professor Carvalho das Neves descreve métodos e técnicas que são utilizadas na análise de uma empresa. "Procura estimular os gestores e analistas à utilização dessas técnicas ainda pouco conhecidas entre nós", diz o gestor Pedro Pintassilgo.
F.I.A.S.C.O. - Luís Luna Vaz, Espírito Santo Research. "É uma referência dentro dos livros sobre mercados, onde se percebe a elevada complexidade das actividades desenvolvidas pelos bancos de investimento". É desta forma que Luís Luna Vaz justifica a escolha do livro escrito por Frank Partnoy.
YOU CAN BE [...] A GENIUS - Francisco Carneiro, BPI Gestão Activos. O autor Joel Greenblatt decidiu contar como gere um 'Hedge Fund' com resultados inacreditáveis. Para Francisco Carneiro, o livro e pouco técnico, mas a mensagem é clara: "Se quer caçar, o melhor é ir para um lugar onde haja caça".
THE BLACK SWAN - Leonardo Mathias, Schroder Portugal. O autor explora a influência de acontecimentos improváveis, que acabam por ter impacto massivo no mundo. Para quem quer começar a investir, Leonardo Mathias aconselha a conhecerem-se primeiro a si próprios com "O Principezinho".
London Stock Exchange
DESEJO DE PAPEL - Miguel Geraldes, Euronext Lisboa. De modo rigoroso, James Buchan mostra como o dinheiro colonizou o mundo quer na sua forma material, quer enquanto felicidade e fantasia. Miguel Geraldes diz que é um livro interessante, "dada a sua abordagem filosófica ao dinheiro".
ENRIQUECER NA BOLSA - Diogo Cunha, Banco Investimento Global. Traduzido em 12 países, a obra desvenda alguns dos segredos de Buffett e ensina a reconhecer as empresas com potencial. "É um desafio a não perder para quem admira a filosofia de um dos homens mais ricos do mundo", diz Diogo Cunha.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

A "MÃO INVI$ÍVEL" A FUNCIONAR NOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA

A "Mão invisível" foi um termo introduzido no século XVIII por Adam Smith em "A Riqueza das Nações", para descrever como uma economia de mercado livre é eficiente e encontra naturalmente equilíbrios sem necessidade de intervenção ou regulamentação. Este termo tornou-se também o lema do capitalismo e a bandeira norte-americana para sustentar o "sonho americano".

Economias liberais como a norte-americana são conhecidas pela sua flexibilidade e capacidade de se ajustar à conjuntura macroeconómica com facilidade, permitindo por um lado, em períodos de recessão uma rápida redução da capacidade produtiva, em especial devido a leis laborais suaves, e por outro lado também favorecendo a saída de recessões ao permitirem às empresas aumentar a sua capacidade produtiva sem o ónus de ter que garantir o posto de um trabalhador para sempre. De resto, a história económica tem provado ao longo do tempo que as economias mais liberais são por norma as mais céleres a abandonar crises.

Agora, em 2012, a economia norte-americana deverá escapar à recessão, contrariamente ao "velho continente", que parece destinado a viver tempos difíceis. A "mão invisível" resolve?

"Mão invisível" ou "Mão invi$ível"?

Desde 2008 que a Reserva Federal norte-americana, através de uma política monetária designada por quantitative easing tem injetado dinheiro na economia, através da compra em mercado de ativos financeiros, primeiro, em 2008, comprando Mortgage Backed Securities (os denominados ativos tóxicos), mais tarde, em 2010, comprando massivamente títulos do Tesouro norte-americano, garantindo desta forma a manutenção de taxas de juro de mercado baixas, e consequentemente, uma maior folga orçamental para as famílias norte-americanas.

Adicionalmente, em dezembro de 2010, foi aprovado no congresso norte-americano um pacote orçamental no sentido de manter os cortes fiscais introduzidos por George W. Bush, bem como adicionar novos benefícios fiscais, no valor total de 858 mil milhões de dólares.

Esta intervenção, pouco condizente com o liberalismo apregoado do outro lado do Atlântico, tem-se verificado para já eficaz para combater uma crise financeira que só encontra precedência na grande depressão de 1929. Uma manobra arriscada, potencialmente geradora de pressões inflacionistas, para já pouco relevantes e com impacto reduzido na robustez da sua moeda, o dólar americano.

Os resultados desta estratégia na economia
1. Desemprego: 8,5%, a taxa mais baixa desde Março de 2009
Em dezembro de 2011 foram criados 200 mil postos de emprego, o sexto mês consecutivo em que a economia norte-americana gerou mais de 100 mil postos de emprego, e 1,6 milhões no ano de 2011.

2. Produção industrial: Purchasing Managers Índex (PMI) em alta, indicando uma expansão do sector pelo vigésimo nono mês consecutivo

Em dezembro o PMI foi de 53,9, mais 1,2 pontos do que em novembro, sustentado por novas encomendas e preços das matérias primas em queda nos últimos três meses do ano de 2011. O crescimento anualizado do PIB norte-americano no último trimestre do ano deverá rondar os 2,5%.

3. Exportações: apenas 14% das exportações norte-americanas têm por destino a zona Euro

Se é verdade que as exportações para países da zona euro têm descido (em 2011, menos 7% para a Alemanha e menos 8,8% para a França), estas têm sido compensadas pelo aumento de exportações para a Ásia e Canadá.

4. Imobiliário: número de casas em construção acima das 700 mil em dezembro

Desde a falência do Lehman Brothers em setembro de 2008 que não existiam tantas casas em construção nos Estados Unidos, e em fevereiro de 2011, este número era de apenas 534 mil. De acordo com a National Association of Home Builders (NAHB), também as vendas de novas habitações deverão crescer 18% em 2012, no entanto, o ano de 2011 foi o pior ano de vendas de novas habitações nos últimos cinquenta anos.

5. Inflação: Consumer Price Índex de 3% em dezembro de 2011
Entre 1914 e 2010, a taxa de inflação média nos Estados Unidos foi 3,38%, pelo que os 3% registados em dezembro de 2011, em queda nos últimos meses, indiciam uma inflação controlada.

6. Dívida Pública: a maior em todo o mundo, perto de 100% do PIB

No último trimestre de 2011 a dívida pública norte-americana superou os 15 biliões de dólares, mais 51% do que o nível de endividamento norte-americano registado em 1988. Em 2011, só em juros, o valor pago ascendeu a 454 mil milhões de dólares (quase o dobro do PIB gerado em Portugal durante 2010).

O impacto no mercado acionista norte-americano

Desde o discurso de Ben Bernanke em Jackson Hole a 27 de Agosto de 2010, no qual deixou antever uma segunda vaga de quantitative easing (QE2), o mercado acionista norte-americano registou uma outperformance face ao resto do mundo de 25 pontos percentuais em menos de dois anos.





Em conclusão...

2012 será também marcado nos Estados Unidos por eleições presidenciais, um estimulo adicional para que a atual administração enfoque os seus esforços em garantir um ano de crescimento económico (desde 1833, os últimos dois anos de mandato presidencial registam ganhos acumulados do índice Dow Jones de 743%, contra apenas 228% nos dois primeiros anos), mesmo num cenário mundial de abrandamento económico.

O rumo tomado no combate à crise é distinto do europeu, este último mais centrado na austeridade em prol de finanças públicas sãs. E, os resultados para já, são positivos e encorajadores. E mesmo com uma “mão invi$ível” um pouco diferente da clássica “mão invisível”, o rumo da economia norte-americana mantém-se fiel ao princípio de que sem consumidores não há economia!

Ainda assim, no longo prazo, a fatura das políticas monetária e orçamental seguidas pelos Estados Unidos continuará por pagar, com o défice orçamental em 2011 a atingir os 1.299 mil milhões de dólares, cerca de 10 vezes mais do que há apenas quatro anos atrás, pelo que será fundamental monitorizar a sua evolução e avaliar a sua sustentabilidade

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Constituição e autorização das instituições de crédito e sociedades financeiras

A Constituição e autorização das instituições de crédito e sociedades financeiras é regulada pelos seguintes pontos

Instituições de crédito: Nos termos do artigo 2.º, n.º 1 do Regime Geral das Instituições de Crédito e Sociedades Financeiras (“RGICSF”), instituições de crédito “são as empresas cuja actividade consiste em receber do público depósitos ou outros fundos reembolsáveis, a fim de os aplicarem por conta própria mediante a concessão de crédito.” São também instituições de crédito as instituições de moeda electrónica cujo objecto é a emissão de meios de pagamento sob a forma de moeda electrónica e que, ao contrário de todas as restantes instituições de crédito, não estão autorizadas a recolher depósitos ou outros fundos reembolsáveis e a aplicá-los por conta própria.
O artigo 3.º do RGICSF contém uma lista de todas as instituições de crédito reconhecidas no ordenamento jurídico português. Esta enumeração é taxativa, o que significa que não podem existir mais instituições de crédito para além daquelas que estão listadas naquele artigo.
Sociedades financeiras são aquelas que não são instituições de crédito e que, nos termos do artigo 5.º do RGICSF, cuja actividade principal consista em exercer uma ou mais das actividades referidas na alínea b), excepto locação financeira e factoring, bem como nas alíneas d) a i) do nº 1 do artigo 4.º do RGICSF. O artigo 6.º contém também uma lista taxativa das sociedades financeiras admitidas no ordenamento jurídico português.
Quer as instituições de crédito quer as sociedades financeiras encontram-se sujeitas ao princípio da especialidade, o que significa que apenas podem efectuar as operações permitidas pela lei e regulamento que regem a sua actividade (artigos 4.º, n.º 2 e 7.º do RGICSF). A única excepção a esta regra é o caso dos bancos que, nos termos do artigo 4.º, n.º 1 do RGICSF, estão autorizados a efectuar todas as operações listadas nesse artigo. No entanto, a actividade dos bancos também está limitada, já que apenas podem realizar as operações mencionadas no artigo 4.º do RGICSF (nos termos do artigo 14.º, n.º 1, al. c) do RGICSF).
O artigo 8.º do RGICSF prevê o princípio da exclusividade, que significa que as actividades aí enumeradas apenas podem ser exercidas por instituições de crédito e por sociedades financeiras.
Uma outra categoria relevante é a de intermediários financeiros, que se encontram definidos no artigo 293.º do Código dos Valores Mobiliários e que podem ser instituições de crédito ou sociedades financeiras autorizadas a efectuar actividades de intermediação financeira ou outras entidades, também autorizadas a efectuar actividades de intermediação financeira.

City de Lodres, um dos locais com maior concentração de Bancos e Sociedades Financeiras

Constituição
A constituição de instituições de crédito e sociedades financeiras está dependente de autorização do Banco de Portugal, nos termos dos artigos 16.º e seguintes do RGICSF (aplicável às instituições de crédito e, por força do artigo 175.º, n.º 2).
Para além dos requisitos previstos no artigo 17.º do RGICSF, o Banco de Portugal deverá verificar sempre:
a)            A idoneidade e qualificação profissional dos membros dos órgãos de administração e de fiscalização (artigos 30.º, 31.º e 32.º do RGICSF);
b)           Comunicação e autorização da aquisição de participações qualificadas (artigos 102.º a 105.º do RGICSF).
Formas de actuação no exterior:
•             Prestação de serviços: (artigos 43.º, 60.º e 61.º do RGICSF)
•             Sucursais (artigos 36.º a 42.º A do RGICSF e 48.º a 56.º RGICSF)
•             Escritórios de representação: 62.º a 64.º RGICSF

AS VANTAGENS COMPARATIVAS: O MODELO DE RICARDO

O Modelo das Vantagens Comparativas de David Ricardo


Exposto no século XIX por David Ricardo, o princípio das vantagens comparativas visa demonstrar a superioridade da livre-troca sobre isolamento. Enuncia-se da seguinte maneira: Os países ganham com a troca se se especializarem na produção do(s) bem(s) com o(s) custo(s) de produção relativo(s) mais baixo(s). Justificaremos o princípio a partir de um exemplo simples.

Leia todo o principio detalhado do Modelo de David Ricardo, também conhecido por Modelo Ricardiano.

Dois países em isolamento
Suponhamos que a França (F) e a Itália (I) produzem dois bens, o trigo e os automóveis, graças a um único factor primário, o trabalho. Este último circula livremente entre o ramo «trigo» e o ramo «automóvel», no interior de cada país mas não sai das fronteiras. Para produzir uma unidade de trigo, F utiliza duas unidades do seu trabalho e I cinco unidades. Para os automóveis, os custos unitários são, respectivamente, três em França e quatro em Itália. F dispõe de seis mil unidades de trabalho e I de dez mil unidades. Repartindo diferentemente o seu stock de trabalho entre os dois ramos, F pode obter várias combinações de bens produzidos; o mesmo se passa com I.
Para compreender como são obtidos os elementos do Quadro 1, tomar-se-á um exemplo.
Para produzir 750 unidades de trigo F utiliza 2 x 750 = 1500 unidades de trabalho. Como F dispõe ao todo de 6000 unidades de trabalho, resta-lhe 4500 para produzir automóveis. Cada automóvel necessita de três unidades de trabalho, produz 45°0 = 1500 automóveis.
Por conseguinte, à produção de 750 unidades de trigo por F, corresponde uma produção de 1500 automóveis. As quantidades produtíveis em cada país são representadas pelos segmentos AB e CO da Figura 1. Esses segmentos têm uma inclinação negativa pois que todo o aumento da produção de um bem necessita de renunciar à produção do outro.
Em isolamento, os bens trocam-se de acordo com os seus custos. Em França para obter um automóvel é necessário pagar += 1,5 unidade de trigo, visto que um automóvel custa três unidades · de trabalho, enquanto uma unidade de trigo apenas custa duas.
Da mesma maneira o preço de um automóvel é igual a + = 0,8 unidade de trigo.
O rendimento nacional em F, avaliado em trigo, é igual à quantidade máxima produtível de trigo por F, ou seja, 3000 unidades de trigo. Oa mesma maneira, o rendimento nacional de I, avaliada em trigo, é igual a 2000 unidades de trigo.
.Em isolamento, o trabalho reparte-se entre os dois ramos de maneira que os consumidores de cada país encontrem no mercado, as quantidades necessárias para satisfazer as suas necessidades. Estas dependem do rendimento nacional, do preço de um bem em relação a outro e de tal maneira que os consumidores distribuem
o rendimento entre os dois bens.
Suponhamos que os consumidores franceses consagram 75 % do rendimento ao trigo e 25 % aos automóveis, e que os consumidores italianos têm o comportamento inverso: 25 %para o trigo e 75 %para os automóveis. O rendimento nacional da França avaliada em trigo valendo 3000 unidades de trigo, a procura dos consumidores franceses é de 0,75 x 3000 = 2250 unidades de trigo. Esta procura é satisfeita pelos produtores nacionais, dado que se está em isolamento. Corresponde-Ihe uma procura (e uma produção) de 500 automóveis. Por razões semelhantes, a procura de trigo pelos consumidores italianos eleva-se a 0,25 x 2000 =500 unidades de trigo e a procura dos automóveis a 1875 automóveis.


A troca entre dois países

Suponhamos que os bens passam a circular livremente entre os dois países. O preço da troca internacional é o mesmo que o preço da troca no interior de cada país, dado não existir nenhum obstáculo (direitos alfandegários) nem qualquer custo de transporte. O preço que se vai estabelecer é o que equilibra os mercados, isto é que assegura a igualdade entre a oferta e a procura de trigo e entre a oferta e a procura de automóveis.
Para compreender a que nível o preço dos automóveis em termos de trigo se vai fixar, é necessário partir dos preços de «isolamento». Sabe-se que estes são determinados pelos custos relativos do trabalho (cf. 1.1.) No exemplo aqui desenvolvido, a França suporta um custo relativo em trabalho inferior para o trigo e a Itália suporta um custo relativamente inferior em trabalho para os automóveis.
Estes custos relativos caracterizam a vantagem de cada: país em relação ao outro. Assim, dir-se-á que a França possui uma vantagem comparativa para o trigo e que a Itália possui uma vantagem comparativa para os automóveis. Cada país tem uma vantagem comparativa em relação ao outro, mas a França tem uma vantagem absoluta nos dois ramos, dados os seus custos de produção serem inferiores, nos dois ramos aos da Itália. O custo relativo de um país também é igual à taxa de substituição na produção. É, com efeito, igual à quantidade de um bem à qual se renuncia, quando se quer produzir uma unidade de um outro bem. Assim, em França, para produzir um automóvel suplementar, é necessário renunciar a 1,5 unidades de trigo. Na Itália, para produzir um automóvel suplementar, é necessário abandonar a produção de 0,8 unidades de trigo.
O preço de equilíbrio
Os dois países não terão interesse na troca se os corisumidores não tiverem um ganho em relação ao isolamento. Torna-se assim necessário que o preço relativo do automóvel em termos de trigo que regula as trocas seja mais interessante que as taxas de substituição na produção de cada parceiro. Cada preço dá automóvel em termos de trigo compreendido entre 0,8 e 1,5 corresponde a um tal ganho. Com efeito, a venda pela Itália de um automóvel vai-lhe render mais de 0,8 de unidades de trigo, enquanto que em isolamento1quando esse país renunciava a produzir um automóvel, não obtinha, em contrapartida, mais que 0,8 unidades de trigo. A aquisição desse automóvel pela França vai-lhe custar menos de uma unidade e meia de trigo, preço que ela teria tido de suportar se tivesse decidido ficar em isolamento e, logo, de a produzir ela própria. As duas partes ficam, pois, a ganhar se se conseguirem entender sobre determinado preço e se cada uma se especializar na produção do bem em que o país dispõe de uma vantagem comparativa. Neste caso, a França deve-se especializar no trigo e a Itália nos automóveis. Estas especializações devem ser totais, visto que o raciocínio que acaba de ser feito se aplica a todas as unidades produzidas.
O preço de equilíbrio p do automóvel em termos de trigo deve permitir aos consumidores dos dois países satisfazer a sua procura a esse preço. Suponhamos que ele se fixe entre 0,8 e 1,5. A França especializa-se totalmente em trigo: produz 3000 unidades. A Itália especializa-se totalmente em automóveis: produz 2500. O rendimento nacional da França avaliada em trigo, vale, como em isolamento, 3000 unidades de trigo e a procura dos seus consumidores pelo trigo é de 0,75 x 3000 = 2250 unidades de trigo. Pode então exportar para a Itália .3000 -2250 = 750 unidades de trigo. A receita nacional da Itália é igual àsua produção avaliada em trigo, ou seja, 2500 p unidades de trigo. A procura do trigo por parte dos seus consumidores vale 0,25 x 2500 P = 625 P unidades de trigo. Como a Itália não produz trigo, satisfaz esta procura através de importações vindas de França. O preço p que assegura o equilíbrio do mercado de trigo é tal que as exportações de trigo pela França (750 p) igualam as importações de trigo pela Itália (625 p). O preço de equilíbrio do automóvel em termos de trigo, p, vale, Pois, 750 = 1,2 unidades de trigo.

Trocas e ganhos
A este preço de equilíbrio, o rendimento nacional de Itália, avaliado em trigo, vale 2500 x p = 2500 x 1,2 = 3000 unidades de trigo. A sua procura de automóveis é igual a 0,75 x rendimento nacional avaliada em automóveis = 0,75 x rendimento nacional avaliada em trigo / 1,2 =0,75 x 3000 / 1,2 =1875 automóveis. Como produz 2500 automóveis, restam 2500 -1875 = 625 automóveis exportadas para França. A procura de importação de automóveis desta, a este preço, é exactamente de 625.

Mais recustos:

Um video bem giro da Fonft Economia que explica o Modelo Ricardiano.

TED Talk onde Matt Ridley fala da vantagem do modelo Ricardiano (entre outras coisas). 

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O que têm comprado os Fundos Soberanos?


O crescimento dos Fundos Soberanos

A origem dos Fundos Soberanos (Sovereign Wealth Funds) remonta a 1953, embora apenas na última década tenham assumido um peso importante, estimando-se que os seus activos ascendam actualmente a 3 triliões de dólares (o que representa 61% da produção económica anual em todo o mundo).

Os Fundos Soberanos resultam directamente do processo de globalização e da acumulação de défices comerciais por parte de países importadores como os EUA e da acumulação de excedentes por parte de países exportadores de produtos manufacturados (como a China) ou de matérias-primas (como a Noruega ou a Rússia).

Ao longo da última década, em particular, as reservas cambiais dos países exportadores ultrapassaram largamente aquelas que seriam necessárias para garantir liquidez às trocas comerciais ou para servir um propósito de “amortecedor” de choques financeiros externos, pelo que alguns Estados criaram ou aproveitaram Fundos já existentes para investir as reservas excedentárias.

Identificamos na tabela seguinte os maiores Fundos Soberanos actualmente existentes.
País
Fundo
Ano
lançamento
Valor em bn USD
Emirados Árabes Unidos
Abu Dhabi Investment Authority
1976
700
Arábia Saudita
Vários
nd
400
Noruega
Government Pension Fund - Global
1990
350
Singapura
GIC, Temasek
1981/1974
350
China
China Investment Corporation
2007
200
Hong Kong
HKMA-IP
nd
200
Rússia
Stabilization Fund
2004
190
Kuwait
Kuwait Investment Authority
1953
169
Fonte: DB Research; últimos dados disponíveis; valores em mil milhões de dólares
O objectivo dos Fundos Soberanos é semelhante ao da generalidade dos investidores particulares: o de maximizar a rendibilidade a longo prazo de uma carteira diversificada de investimentos, em função de um determinado nível de risco.

Ainda que as reservas cambiais sejam investidas tradicionalmente em instrumentos seguros (como obrigações do tesouro, nomeadamente dos maiores importadores, como os EUA), os Fundos Soberanos começaram progressivamente a procurar investimentos com maior retorno potencial, como as acções.

A actividade dos Fundos Soberanos


Entre 1995 e Junho de 2009 a empresa especializada Dealogic reportou transacções no valor de 185 mil milhões de dólares envolvendo como comprador pelo menos uma entidade governamental (embora o valor total possa ser largamente superior, não sendo reportado publicamente). Cerca de 84% deste valor concentrou-se no período 2005-08 (caracterizado por uma forte dinâmica nos investmentos globais), como podemos verificar no gráfico anexo.
Os países da Ásia e do Médio Oriente foram responsáveis por 72% do valor investido desde 1995, tendo os principais destinos do investimento sido a Ásia (31%), a União Europeia (30%) e os EUA (20%), reflectindo o desejo de diversificar as tradicionais aplicações em dólares norte-americanos.

Podemos dizer que os investimentos efectuados em empresas desde 1995 foram de natureza estratégica, e não apenas financeira, já que 62% dos investimentos resultaram em participações superiores a 20% do capital, e 68% foram de valor superior a mil milhões de dólares.

Os Fundos Soberanos aumentaram de forma significativa o seu mediatismo e importância durante a crise financeira, nomeadamente pelas injecções de capital efectuadas no sistema bancário. Cerca de 49% dos 102 mil milhões de dólares investidos em 2007 e 2008 foram canalizados para instituições financeiras, assumindo posições significativas em alguns dos principais Bancos dos EUA, Reino Unido, Suíça, China e Índia, bem como em importantes bolsas de valores como a de Londres e o Nasdaq.
Posição Adquirida
Peso de Fundos Soberanos no Capital
Fundos Adquirentes
Bank of China
15,5%
Singapura
Barclays Bank
12,0%
Singapura, Qatar
Citigroup
22,0%
Singapura, Abu Dhabi, Kuwait
Credit Suisse
10,0%
Qatar
ICICI Bank
12,5%
Singapura, Dubai
London Stock Exchange
43,1%
Qatar, Dubai
Merrill Lynch
23,0%
Singapura, Coreia do Sul, Kuwait
Morgan Stanley
9,9%
China
Nasdaq OMX Group
43,6%
Dubai
Standard Chartered Bank
22,7%
Singapura, Dubai
UBS
9,0%
Singapura
Fonte: Dealogic, DB Research, ActivoBank7
Pesos relativos a meados de Junho 2008, abrange apenas os maiores investimentos divulgados, lista não completa 
Fundos Soberanos considerados: China (CIC), Singapura (GIC, Temasek), Coreia do Sul (KIC), Qatar (QIA), Dubai (DFG,
DIFC, DIFX, entre outros), Abu Dhabi (ADIA, entre outros) Kuwait (KIA).

Os investimentos efectuados no sector bancário entre 2007 e 2008 acabaram por gerar perdas potenciais muito significativas para os Fundos Soberanos, que no epicentro da crise atingiram um mínimo de 60% (Credit Suisse) e um máximo de 96% (Citigroup), mas que no início de Junho de 2009 tinham já sido minimizadas para 12% a 87% (ainda nos Bancos atrás referidos).

Espera-se que os Fundos Soberanos mantenham a maior parte das suas posições nos principais Bancos, pelo menos até recuperarem uma parte substancial das suas perdas, estando em melhor posição para o conseguir do que os investidores particulares, já que têm um horizonte temporal muito alargado. Os desinvestimentos acumulados no sector bancário desde 1995 atingem apenas 10% do valor total investido (excluindo privatizações na China).

Note-se que o entusiasmo por novos investimentos no sector financeiro se reduziu de forma substancial, não se registando novas transacções em 2009.

Exceptuando o sector financeiro, os investimentos dos Fundos Soberanos desde 1995 têm sido razoavelmente equilibrados entre os sectores industrial (14%), serviços (13%), imobiliário (11%), matérias-primas (10%) e tecnologia (9%).

Globalmente, um estudo do Deutsche Bank Research* estima que o valor dos Fundos Soberanos tenha diminuído cerca de 18% entre o final de 2007 e o início de 2009, tendo o peso da componente accionista sido reduzido de 40% para cerca de 27% das carteiras, essencialmente por via do efeito de mercado. Os Fundos Soberanos têm também sentido os “ventos adversos” da perda de receitas dos seus países, por via de um menor volume de exportações e da correcção dos preços das matérias-primas.

“Princípios de Santiago”: o Código de Conduta dos Fundos Soberanos
Muitos Fundos Soberanos são controlados por governos ainda vistos como pouco transparentes ou democráticos, pelo que a aquisição de posições de controlo em activos estratégicos ocidentais tende a ser vista com preocupação. Desta forma, não tardaram pressões dos governos dos países mais desenvolvidos no sentido de ser estabelecido pelos Fundos Soberanos um Código de Conduta, em colaboração com entidades supranacionais como o Fundo Monetário Internacional (FMI).

No início de Maio de 2008, foi estabelecida uma organização (IWG – International Working Group) que reúne 26 países com Fundos Soberanos que, depois de várias reuniões preparatórias, com intervenção do FMI, divulgou em Outubro de 2008 em Santiago do Chile um conjunto de princípios e práticas aceites de forma generalizada (GAPP – Generally Accepted Principles and Practices), conhecidas como os “Princípios de Santiago” **.

Resumidamente, os “Princípios de Santiago” abrangem os seguintes tópicos:
  • Compromisso em torno de objectivos financeiros, e não políticos;
  • Transparência, incluindo detalhes sobre a utilização de direitos de voto, gestão de risco e utilização de alavancagem financeira;
  • Governação corporativa, estruturas organizacionais e processos (incluindo o compromisso de separar a gestão do Fundo da gestão do Governo);
  • Monitorização dos GAPP por um grupo de países previamente designado.
Em conclusão ...

O papel dos Fundos Soberanos na cedência de capital aos Bancos ocidentais foi fundamental para minimizar o risco sistémico decorrente de eventuais falências generalizadas, mas os mesmos acabaram por pagar um preço elevado por terem concentrado perto de metade dos seus investimentos em 2007 e 2008 num único sector de actividade. Os investidores particulares têm aqui um bom exemplo da importância de diversificar uma carteira de forma adequada por diferentes classes de activos, regiões geográficas e sectores de actividade.

Apesar das recentes contrariedades, tudo indica que os Fundos Soberanos vieram para ficar, sendo intervenientes cada vez mais importantes nos mercados financeiros, com um nível de transparência amplificado pelos “Princípios de Santiago”. O já referido estudo do DB Research estima que os seus activos possam atingir 7 triliões de dólares dentro de 10 anos, mais do dobro dos níveis actuais, ainda que tal esteja dependente da retoma do crescimento do comércio global.

Ficar atento ao comportamento de investidores com tão elevado poder de compra parece ser, desta forma, uma decisão avisada.


* Steffen Kern - «Sovereign wealth funds – state investments during the financial crisis», Deutsche Bank Research, Julho de 2009

** IWG International Working Group of Sovereign Wealth Funds - «Sovereign Wealth Funds – Generally Accepted Principles and Practices, “Santiago Principles”», Outubro de 2008

Comprar ou arrendar?

Comprar casa ou arrendar casa?


Diz a tradição que arrendar é deitar dinheiro à rua. Para quê estar a pagar uma renda que só beneficia o senhorio, quando podemos pagar uma prestação ao Banco de valor idêntico, sendo que o imóvel é 100% nosso no final do empréstimo?

A teoria prevalecente baseia-se no pressuposto de que o preço dos imóveis sobe sempre de forma contínua ao longo dos anos, pelo que além da utilidade que deles retiramos como residência, podemos considerá-los um investimento rentável e seguro. Desta forma, só os “desafortunados” que não têm um mínimo de capital próprio para dar de entrada para uma casa terão que se sujeitar ao arrendamento.

Bom, a tradição pode já não ser o que era ... De acordo com dados recentemente publicados pelo Financial Times, a crise imobiliária iniciada nos EUA já chegou a Portugal, onde os preços das casas desvalorizaram 6,8% no último ano, acima da média europeia.

A evolução negativa dos preços, conjugada com a maior dificuldade de acesso a crédito bancário, tem contribuído para a quebra do número de transacções imobiliárias no nosso país: de acordo com a  Associação dos Profissionais e Empresas de Mediação Imobiliária de Portugal (APEMIP), venderam-se em 2008 menos 19.000 imóveis que no ano anterior, uma quebra de 9%.

Neste sentido, a opção pelo arrendamento tem registado uma procura crescente em Portugal. Uma consulta a algumas agências imobiliárias torna evidente que o peso dos arrendamentos no seu volume de negócios aumentou significativamente nos últimos meses.

Procuramos com este artigo contribuir para uma decisão mais fundamentada, analisando as vantagens e os inconvenientes da compra de casa, em comparação com o arrendamento.

«Comprar é para ricos, arrendar é para pobres»
É lógico assumir que os proprietários são mais ricos do que os inquilinos.

Os factos comprovam a lógica: de acordo com o mais recente inquérito da Reserva Federal norte-americana (Fed) às Finanças Pessoais, o património médio dos proprietários nos EUA é 11 vezes superior ao dos inquilinos e o rendimento médio quase 3 vezes superior. Se utilizarmos a mediana (a qual permite atenuar o impacto de observações extremas no universo analisado), a disparidade média no património é ainda mais acentuada.  
Valores em milhares dólares
Rendimento familiar bruto
Património líquido
Média
Mediana
Média
Mediana
Proprietários
105,6
61,7
778,2
234,2
Inquilinos
37,5
27,8
70,6
5,1
The Federal Reserve Board - Survey of Consumer Finances, 2007
Será tentador concluir que os proprietários são mais ricos porque têm património imobiliário. No entanto, apenas podemos afirmar com alguma segurança que a sua maior capacidade financeira lhes permite mais facilmente a opção de compra de um imóvel.

Mesmo as pessoas com maiores rendimentos poderão ter vantagem em assumir a condição de inquilinos. Em que circunstâncias? Vamos apresentar um exemplo concreto.

Os custos de arrendar e de comprar
Tomemos o exemplo do Sr. António Resende, de 37 anos, divorciado, que está indeciso entre comprar ou arrendar um apartamento T0, em Lisboa, para habitação própria permanente. O valor de compra do imóvel é de 120.000 €, mas existe também a opção de o arrendar pelo valor mensal de 500 €. O promotor decidiu utilizar um rácio de 20 entre o preço de venda e a renda anual, que sabe ser a referência média.

Como o Sr. Resende tem cerca de 25.000 € em depósitos, está a considerar a contratação de um crédito à habitação para um valor de 100.000 € e um prazo de 30 anos.

Desde logo chega à primeira conclusão. Comprar casa exige um investimento inicial substancialmente superior a um contrato de arrendamento: neste último, para além das 2 primeiras rendas, apenas costuma ser pedida uma caução no valor de uma renda; na compra, temos que adicionar ao capital investido (neste caso, 20.000 €) o valor do Imposto Municipal sobre Transmissões Onerosas de Imóveis (IMT), da Escritura, dos Registos e das Despesas Bancárias (neste caso, no total de 3.634 €). Temos ainda que contar com a futura comissão da agência imobiliária para vender o imóvel, que vamos considerar pelo valor de 4.800 €.

Ao saber destes valores, o Sr. Resende tira a segunda conclusão: o total dos custos pontuais com a compra deverá ser diluído por um prazo suficientemente alargado. Se o horizonte temporal previsto para a posse do imóvel for de apenas 3 anos, por exemplo, o encargo mensualizado dos custos pontuais seria de 234 €. No arrendamento, este encargo é nulo, uma vez que o valor da caução é habitualmente devolvido no final do contrato.
Arrendar
Valor
Comprar (com crédito)
Valor
1. Custos pontuais
Caução (opcional)
500 €
IMT
606 €
Escritura
2.008 €
Registos
500 €
Despesas bancárias
520 €
Comissão agência (na venda)
4.800 €
Total
500 €
Total
8.434 €

Para poder comparar os custos mensais recorrentes das duas opções, o Sr. Resende pede uma simulação de um crédito à habitação para o valor de 100.000 €, com um prazo de 30 anos e uma taxa de juro fixa de 5%. A prestação mensal seria de 536,82 €. No entanto, o nosso protagonista sabe que uma parte deste valor não é na verdade um custo, mas uma amortização de capital.

Nos primeiros 5 anos do empréstimo, cerca de 75% da prestação corresponde ao pagamento de juros, e apenas 25% à amortização do capital. O Sr. Resende irá pagar inicialmente cerca de 400 € por mês em juros. Ainda que uma parte possam ser abatidos à colecta no IRS, o mesmo acontece para as rendas. Mas, ao contrário do que acontece no arrendamento, o proprietário tem um conjunto de outros encargos mensais: os seguros de vida e multi-riscos, o Imposto Municipal sobre Imóveis (IMI), a Taxa de Conservação de Esgotos (aplicável em Lisboa, mas não em todos os concelhos do país), o condomínio e os custos com a manutenção e reparações.

Observando estes valores, o Sr. Resende chegou à terceira conclusão: os custos efectivos mensais tendem a ser superiores na opção de compra, durante os primeiros anos do empréstimo. A principal excepção ocorreria se tivesse sido contratada uma taxa de juro variável (indexada à Euribor, por exemplo), e a mesma estivesse abaixo da média de longo prazo. Mas o nosso protagonista preferiu eliminar o risco de variação das taxas de juro.
Arrendar
Valor
Comprar (com crédito)
Valor
2. Custos mensais
Renda
500 €
Juros
402 €
Dedução fiscal renda
-49 €
Dedução fiscal juros
-49 €
Seguros (vida e multi-riscos)
21 €
IMI*
28 €
Taxa Esgotos (Lisboa)*
3,5 €
Condomínio e manutenção
100 €
Total
451 €
Total
506 €
*  as taxas aplicáveis para o IMI e Taxa de Conservação de Esgotos são de 0,4% e 0,05% sobre o valor patrimonial, respectivamente, para os imóveis (re)avaliados após 1 de Janeiro de 2004. Neste caso, pode ser requerida uma isenção do pagamento de IMI pelo período de 6 anos. Considerámos neste exemplo um valor patrimonial de 84.000 €.
Contudo, à medida que vai decorrendo o empréstimo bancário, a componente dos juros vai diminuindo (como podemos observar na tabela em anexo). Fazendo estas contas, o Sr. Resende chegou à quarta conclusão: enquanto o custo das rendas é sempre crescente (actualizado pela inflação), o custo com os juros é sempre decrescente (pressupondo uma taxa fixa), chegando a zero no final do empréstimo.
Anos
Peso dos juros na prestação (aprox)
0 a 5
75%
6 a 10
67%
11 a 15
58%
16 a 20
46%
21 a 25
31%
26 a 30
12%
Pressupostos: capital 100.000 €, 360 meses, Taxa 5%
O Sr. Resende concluiu que, na óptica dos custos mensais, a opção de compra é tanto mais vantajosa quanto mais alargada for a posse do imóvel, na medida em que vão sendo diluídos os custos de transacção e vai diminuindo a componente de juros na prestação do crédito.
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A acumulação de capital para os proprietários
Uma das razões mais apontadas para a opção pela compra de casa própria em relação ao arrendamento é que quando termina o pagamento das prestações o imóvel é nosso. Ou seja, a contratação de um crédito para compra de casa permite acumular capital.

Será esta a melhor opção para acumular capital?

Tem, desde logo, uma vantagem evidente: torna-nos mais disciplinados, uma vez que a amortização mensal de capital é automática e não pode ser interrompida.

Ainda assim, uma vez que os juros assumem uma grande proporção da prestação nos primeiros anos, o ritmo de acumulação de capital é relativamente lento, como podemos verificar na tabela em anexo.
Anos
Capital acumulado
5
8.171 €
10
18.658 €
 15
32.116 €
20
49.387 €
25
71.553 €
30
100.000 €
Pressupostos: capital 100.000 €, 360 meses, Taxa 5%

Mas será um imóvel o melhor activo para acumular capital? Vimos na newsletter nº 385 que os imóveis valorizam pouco mais que a inflação, a longo prazo. Nos EUA, a valorização média desde 1890 superou a inflação em apenas 0,4% por ano.

E, ao contrário do que se acreditava até há pouco tempo, o valor dos imóveis também pode descer. Desde os valores máximos atingidos em 2006, o preço das casas desceu perto de 28% nos EUA (índice Case-Shiller) e cerca de 7,5% em Portugal (de acordo com dados divulgados na passada semana pelo jornal Financial Times, com base em valores de avaliações bancárias agregados pelo Instituto Nacional de Estatística).

Em Portugal, aliás, a valorização dos imóveis ao longo dos últimos 7 anos foi de 9,1% (inferior à inflação no mesmo período), em contraste com a subida de 41,3% ao nível europeu.
Note-se que, para além do risco de variação dos preços, os proprietários estão expostos a outros riscos:

1. Risco de liquidez: os imóveis são bens pouco líquidos, que demoram tempo a serem transaccionados; caso surja uma emergência, os vendedores podem ter que conceder descontos significativos para realizar rapidamente um negócio.

2. Risco de alavancagem:(se existir crédito): o capital próprio na compra de um imóvel é habitualmente pequeno face ao valor de aquisição. No exemplo que temos vindo a acompanhar, o capital próprio é de 20.000 €, na compra de um imóvel de 120.000 €. Pequenas oscilações de preço do imóvel podem ter um impacto muito significativo no valor do nosso capital. Uma descida de 10% (12.000 €) implicaria uma perda de 60% do valor investido “do nosso bolso”.

3. Risco de taxa de juro: (se for contratada taxa variável): a generalidade dos empréstimos imobiliários em Portugal estão indexados à taxa Euribor. Se esta subir de forma significativa (como aconteceu até Outubro de 2008), os custos mensais poderão atingir valores superiores à expectativa inicial.

4. Risco de concentração dos investimentos: recomenda a prudência que não devemos «colocar todos os ovos no mesmo cesto». E, no entanto, muitos proprietários têm uma parte substancial do seu património num único activo (a sua casa), ficando expostos à variação do seu preço.

Existem também riscos relacionados com fenómenos da natureza (como inundações ou terramotos), embora esses possam ser cobertos por uma apólice de seguro.

A acumulação de capital para os arrendatários
Vimos que a opção pela compra de um imóvel requer à partida o investimento de capital próprio. No caso do Sr. Resende, 20.000 €. Se optar pelo arrendamento, o mesmo ficará com este valor disponível, acrescido de uma poupança de 3.134 € (valor das despesas iniciais, deduzido pelo valor da caução). Ou seja, poderá investir 23.134 € em activos financeiros. A remuneração destes activos pode ser considerada um custo de oportunidade do proprietário (que existe sempre, mesmo que não recorra a crédito).

Mas a acumulação de capital pode continuar ao longo da vida: o arrendatário pode investir mensalmente o valor que seria destinado a amortização de capital num empréstimo.

E qual a taxa de rendibilidade esperada desses activos financeiros? Se a carteira for composta em partes iguais por acções e obrigações, o retorno anual esperado a longo prazo é de 4% acima da inflação, ainda que as observações anuais possam variar de forma substancial, em função da volatilidade inerente a alguns activos (em particular às acções), não sendo garantido que tal retorno possa ser atingido.

Vamos supor que o Sr. Resende opta mesmo pelo contrato de arrendamento, investindo desde logo os 23.134 € numa carteira equilibrada de acções e obrigações, reforçada mensalmente com o valor que seria destinado à amortização de capital no crédito à habitação.

Admitindo que nos próximos 30 anos a valorização dos activos imobiliários e financeiros repete a média dos últimos 100 anos, e que a inflação média se situará nos 2,5%, então o Sr. Resende chegaria ao final da sua acumulação de capital com os seguintes valores aproximados:
  • Como proprietario: 283.000 € (taxa de retorno anual: 2,9% sobre o valor do imóvel)
  • Como arrendatário: 390.000 € (taxa de retorno anual: 6,5% sobre o capital inicial e entregas anuais)   
O Sr. Resende chegou a uma nova conclusão: a compra de um imóvel não é necessariamente a melhor forma de acumular capital.

Qual a decisão final do Sr. Resende?

O Sr. Resende irá optar pela solução que maximize a sua situação líquida (capital acumulado deduzido dos custos acumulados), em função do prazo que prevê ficar na casa. 

Como podemos ver no gráfico em anexo (que assume os parâmetros descritos no exemplo em análise), neste caso arrendar é a melhor opção até ao 64º mês (um pouco mais de 5 anos), ou até ao 117º mês (perto de 10 anos) se considerarmos uma comissão de venda do imóvel de 4%.

A vantagem da opção de compra durante uma parte substancial do período considerado resulta em grande parte do efeito de alavancagem permitido pelo crédito: ao fim de 5 anos, o capital próprio investido é de apenas 28.171 €, mas o Sr. Resende está a usufruir da eventual valorização do imóvel partindo de uma base de 120.000 €. Ou seja, os ganhos são multiplicados. Por outro lado, os juros mensais são decrescentes na opção de compra (à medida que o empréstimo é amortizado), enquanto a renda é crescente, actualizada pela inflação.
Quando o empréstimo está perto de ser liquidado, ou seja, quando o capital investido no imóvel é em grande parte do proprietário, perde-se o efeito de alavancagem, e o inquilino volta a ganhar vantagem a partir do 319º mês (um pouco mais de 26 anos).

O que levou o Sr. Resende a tirar nova conclusão: quando um imóvel é financiado em grande parte com capitais próprios, arrendar é quase sempre a melhor opção financeira, desde que seja possível rentabilizar o capital disponível a uma taxa significativamente superior (neste caso, 6,5% ao ano numa carteira de acções e obrigações, contra 2,9% no imóvel).

O valor intangível de comprar uma casa
Comprar uma casa tem um benefício que não é quantificável: o impacto emocional da estabilidade, de "criar raízes". O orgulho de ter algo que é nosso e o estatuto social que isso confere.

Viver numa casa arrendada não é uma experiência igual a viver na nossa própria casa: o senhorio pode cancelar o contrato, forçando-nos a mudar de casa; não somos livres de fazer o que bem nos apetece, decorar à nossa vontade, poder ter animais domésticos, de assumir a casa como um hobby.

Em conclusão ...Entre as opções de comprar ou arrendar uma casa, não há uma clara vencedora, exceptuando em prazos curtos de estadia (até 5 anos), em que arrendar é quase sempre a melhor opção, atendendo aos custos associados à compra e venda de um imóvel e ao capital próprio que é necessário investir. 

Comprar casa dá-nos estabilidade, arrendar dá-nos flexibilidade. A mesma pessoa pode ter vantagens em arrendar numa fase da sua vida, e em comprar noutra fase. Nos EUA, cada pessoa muda de casa 11,7 vezes ao longo da vida, mas apenas 3,1 vezes a partir dos 44 anos de idade. Neste pressuposto, pode fazer sentido para um jovem começar por arrendar (até porque tem pouco capital próprio) e mais tarde vir a comprar.

A nossa casa não é um investimento como outro qualquer. Compramos uma casa para morar, e não um investimento para morar. Desta forma, devemos também considerar factores não financeiros na nossa decisão, como o simples prazer de ter algo que é nosso.
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