O crescimento dos Fundos Soberanos
A origem dos Fundos Soberanos (Sovereign Wealth Funds) remonta a 1953, embora apenas na última década tenham assumido um peso importante, estimando-se que os seus activos ascendam actualmente a 3 triliões de dólares (o que representa 61% da produção económica anual em todo o mundo).
Os Fundos Soberanos resultam directamente do processo de globalização e da acumulação de défices comerciais por parte de países importadores como os EUA e da acumulação de excedentes por parte de países exportadores de produtos manufacturados (como a China) ou de matérias-primas (como a Noruega ou a Rússia).
Ao longo da última década, em particular, as reservas cambiais dos países exportadores ultrapassaram largamente aquelas que seriam necessárias para garantir liquidez às trocas comerciais ou para servir um propósito de “amortecedor” de choques financeiros externos, pelo que alguns Estados criaram ou aproveitaram Fundos já existentes para investir as reservas excedentárias.
Identificamos na tabela seguinte os maiores Fundos Soberanos actualmente existentes.
País
|
Fundo
|
Ano
lançamento |
Valor em bn USD
|
Emirados Árabes Unidos
|
Abu Dhabi Investment Authority
|
1976
|
700
|
Arábia Saudita
|
Vários
|
nd
|
400
|
Noruega
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Government Pension Fund - Global
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1990
|
350
|
Singapura
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GIC, Temasek
|
1981/1974
|
350
|
China
|
China Investment Corporation
|
2007
|
200
|
Hong Kong
|
HKMA-IP
|
nd
|
200
|
Rússia
|
Stabilization Fund
|
2004
|
190
|
Kuwait
|
Kuwait Investment Authority
|
1953
|
169
|
Fonte: DB Research; últimos dados disponíveis; valores em mil milhões de dólares
| |||
O objectivo dos Fundos Soberanos é semelhante ao da generalidade dos investidores particulares: o de maximizar a rendibilidade a longo prazo de uma carteira diversificada de investimentos, em função de um determinado nível de risco.
Ainda que as reservas cambiais sejam investidas tradicionalmente em instrumentos seguros (como obrigações do tesouro, nomeadamente dos maiores importadores, como os EUA), os Fundos Soberanos começaram progressivamente a procurar investimentos com maior retorno potencial, como as acções.
A actividade dos Fundos Soberanos
Entre 1995 e Junho de 2009 a empresa especializada Dealogic reportou transacções no valor de 185 mil milhões de dólares envolvendo como comprador pelo menos uma entidade governamental (embora o valor total possa ser largamente superior, não sendo reportado publicamente). Cerca de 84% deste valor concentrou-se no período 2005-08 (caracterizado por uma forte dinâmica nos investmentos globais), como podemos verificar no gráfico anexo.
Ainda que as reservas cambiais sejam investidas tradicionalmente em instrumentos seguros (como obrigações do tesouro, nomeadamente dos maiores importadores, como os EUA), os Fundos Soberanos começaram progressivamente a procurar investimentos com maior retorno potencial, como as acções.
A actividade dos Fundos Soberanos
Entre 1995 e Junho de 2009 a empresa especializada Dealogic reportou transacções no valor de 185 mil milhões de dólares envolvendo como comprador pelo menos uma entidade governamental (embora o valor total possa ser largamente superior, não sendo reportado publicamente). Cerca de 84% deste valor concentrou-se no período 2005-08 (caracterizado por uma forte dinâmica nos investmentos globais), como podemos verificar no gráfico anexo.
Os países da Ásia e do Médio Oriente foram responsáveis por 72% do valor investido desde 1995, tendo os principais destinos do investimento sido a Ásia (31%), a União Europeia (30%) e os EUA (20%), reflectindo o desejo de diversificar as tradicionais aplicações em dólares norte-americanos.
Podemos dizer que os investimentos efectuados em empresas desde 1995 foram de natureza estratégica, e não apenas financeira, já que 62% dos investimentos resultaram em participações superiores a 20% do capital, e 68% foram de valor superior a mil milhões de dólares.
Os Fundos Soberanos aumentaram de forma significativa o seu mediatismo e importância durante a crise financeira, nomeadamente pelas injecções de capital efectuadas no sistema bancário. Cerca de 49% dos 102 mil milhões de dólares investidos em 2007 e 2008 foram canalizados para instituições financeiras, assumindo posições significativas em alguns dos principais Bancos dos EUA, Reino Unido, Suíça, China e Índia, bem como em importantes bolsas de valores como a de Londres e o Nasdaq.
Podemos dizer que os investimentos efectuados em empresas desde 1995 foram de natureza estratégica, e não apenas financeira, já que 62% dos investimentos resultaram em participações superiores a 20% do capital, e 68% foram de valor superior a mil milhões de dólares.
Os Fundos Soberanos aumentaram de forma significativa o seu mediatismo e importância durante a crise financeira, nomeadamente pelas injecções de capital efectuadas no sistema bancário. Cerca de 49% dos 102 mil milhões de dólares investidos em 2007 e 2008 foram canalizados para instituições financeiras, assumindo posições significativas em alguns dos principais Bancos dos EUA, Reino Unido, Suíça, China e Índia, bem como em importantes bolsas de valores como a de Londres e o Nasdaq.
Posição Adquirida
|
Peso de Fundos Soberanos no Capital
|
Fundos Adquirentes
|
Bank of China
|
15,5%
|
Singapura
|
Barclays Bank
|
12,0%
|
Singapura, Qatar
|
Citigroup
|
22,0%
|
Singapura, Abu Dhabi, Kuwait
|
Credit Suisse
|
10,0%
|
Qatar
|
ICICI Bank
|
12,5%
|
Singapura, Dubai
|
London Stock Exchange
|
43,1%
|
Qatar, Dubai
|
Merrill Lynch
|
23,0%
|
Singapura, Coreia do Sul, Kuwait
|
Morgan Stanley
|
9,9%
|
China
|
Nasdaq OMX Group
|
43,6%
|
Dubai
|
Standard Chartered Bank
|
22,7%
|
Singapura, Dubai
|
UBS
|
9,0%
|
Singapura
|
Fonte: Dealogic, DB Research, ActivoBank7
Pesos relativos a meados de Junho 2008, abrange apenas os maiores investimentos divulgados, lista não completa Fundos Soberanos considerados: China (CIC), Singapura (GIC, Temasek), Coreia do Sul (KIC), Qatar (QIA), Dubai (DFG, DIFC, DIFX, entre outros), Abu Dhabi (ADIA, entre outros) Kuwait (KIA). | ||
Os investimentos efectuados no sector bancário entre 2007 e 2008 acabaram por gerar perdas potenciais muito significativas para os Fundos Soberanos, que no epicentro da crise atingiram um mínimo de 60% (Credit Suisse) e um máximo de 96% (Citigroup), mas que no início de Junho de 2009 tinham já sido minimizadas para 12% a 87% (ainda nos Bancos atrás referidos).
Espera-se que os Fundos Soberanos mantenham a maior parte das suas posições nos principais Bancos, pelo menos até recuperarem uma parte substancial das suas perdas, estando em melhor posição para o conseguir do que os investidores particulares, já que têm um horizonte temporal muito alargado. Os desinvestimentos acumulados no sector bancário desde 1995 atingem apenas 10% do valor total investido (excluindo privatizações na China).
Note-se que o entusiasmo por novos investimentos no sector financeiro se reduziu de forma substancial, não se registando novas transacções em 2009.
Exceptuando o sector financeiro, os investimentos dos Fundos Soberanos desde 1995 têm sido razoavelmente equilibrados entre os sectores industrial (14%), serviços (13%), imobiliário (11%), matérias-primas (10%) e tecnologia (9%).
Globalmente, um estudo do Deutsche Bank Research* estima que o valor dos Fundos Soberanos tenha diminuído cerca de 18% entre o final de 2007 e o início de 2009, tendo o peso da componente accionista sido reduzido de 40% para cerca de 27% das carteiras, essencialmente por via do efeito de mercado. Os Fundos Soberanos têm também sentido os “ventos adversos” da perda de receitas dos seus países, por via de um menor volume de exportações e da correcção dos preços das matérias-primas.
“Princípios de Santiago”: o Código de Conduta dos Fundos Soberanos
Muitos Fundos Soberanos são controlados por governos ainda vistos como pouco transparentes ou democráticos, pelo que a aquisição de posições de controlo em activos estratégicos ocidentais tende a ser vista com preocupação. Desta forma, não tardaram pressões dos governos dos países mais desenvolvidos no sentido de ser estabelecido pelos Fundos Soberanos um Código de Conduta, em colaboração com entidades supranacionais como o Fundo Monetário Internacional (FMI).
No início de Maio de 2008, foi estabelecida uma organização (IWG – International Working Group) que reúne 26 países com Fundos Soberanos que, depois de várias reuniões preparatórias, com intervenção do FMI, divulgou em Outubro de 2008 em Santiago do Chile um conjunto de princípios e práticas aceites de forma generalizada (GAPP – Generally Accepted Principles and Practices), conhecidas como os “Princípios de Santiago” **.
Resumidamente, os “Princípios de Santiago” abrangem os seguintes tópicos:
Espera-se que os Fundos Soberanos mantenham a maior parte das suas posições nos principais Bancos, pelo menos até recuperarem uma parte substancial das suas perdas, estando em melhor posição para o conseguir do que os investidores particulares, já que têm um horizonte temporal muito alargado. Os desinvestimentos acumulados no sector bancário desde 1995 atingem apenas 10% do valor total investido (excluindo privatizações na China).
Note-se que o entusiasmo por novos investimentos no sector financeiro se reduziu de forma substancial, não se registando novas transacções em 2009.
Exceptuando o sector financeiro, os investimentos dos Fundos Soberanos desde 1995 têm sido razoavelmente equilibrados entre os sectores industrial (14%), serviços (13%), imobiliário (11%), matérias-primas (10%) e tecnologia (9%).
Globalmente, um estudo do Deutsche Bank Research* estima que o valor dos Fundos Soberanos tenha diminuído cerca de 18% entre o final de 2007 e o início de 2009, tendo o peso da componente accionista sido reduzido de 40% para cerca de 27% das carteiras, essencialmente por via do efeito de mercado. Os Fundos Soberanos têm também sentido os “ventos adversos” da perda de receitas dos seus países, por via de um menor volume de exportações e da correcção dos preços das matérias-primas.
“Princípios de Santiago”: o Código de Conduta dos Fundos Soberanos
Muitos Fundos Soberanos são controlados por governos ainda vistos como pouco transparentes ou democráticos, pelo que a aquisição de posições de controlo em activos estratégicos ocidentais tende a ser vista com preocupação. Desta forma, não tardaram pressões dos governos dos países mais desenvolvidos no sentido de ser estabelecido pelos Fundos Soberanos um Código de Conduta, em colaboração com entidades supranacionais como o Fundo Monetário Internacional (FMI).
No início de Maio de 2008, foi estabelecida uma organização (IWG – International Working Group) que reúne 26 países com Fundos Soberanos que, depois de várias reuniões preparatórias, com intervenção do FMI, divulgou em Outubro de 2008 em Santiago do Chile um conjunto de princípios e práticas aceites de forma generalizada (GAPP – Generally Accepted Principles and Practices), conhecidas como os “Princípios de Santiago” **.
Resumidamente, os “Princípios de Santiago” abrangem os seguintes tópicos:
- Compromisso em torno de objectivos financeiros, e não políticos;
- Transparência, incluindo detalhes sobre a utilização de direitos de voto, gestão de risco e utilização de alavancagem financeira;
- Governação corporativa, estruturas organizacionais e processos (incluindo o compromisso de separar a gestão do Fundo da gestão do Governo);
- Monitorização dos GAPP por um grupo de países previamente designado.
Em conclusão ...
O papel dos Fundos Soberanos na cedência de capital aos Bancos ocidentais foi fundamental para minimizar o risco sistémico decorrente de eventuais falências generalizadas, mas os mesmos acabaram por pagar um preço elevado por terem concentrado perto de metade dos seus investimentos em 2007 e 2008 num único sector de actividade. Os investidores particulares têm aqui um bom exemplo da importância de diversificar uma carteira de forma adequada por diferentes classes de activos, regiões geográficas e sectores de actividade.
Apesar das recentes contrariedades, tudo indica que os Fundos Soberanos vieram para ficar, sendo intervenientes cada vez mais importantes nos mercados financeiros, com um nível de transparência amplificado pelos “Princípios de Santiago”. O já referido estudo do DB Research estima que os seus activos possam atingir 7 triliões de dólares dentro de 10 anos, mais do dobro dos níveis actuais, ainda que tal esteja dependente da retoma do crescimento do comércio global.
Ficar atento ao comportamento de investidores com tão elevado poder de compra parece ser, desta forma, uma decisão avisada.
* Steffen Kern - «Sovereign wealth funds – state investments during the financial crisis», Deutsche Bank Research, Julho de 2009
** IWG International Working Group of Sovereign Wealth Funds - «Sovereign Wealth Funds – Generally Accepted Principles and Practices, “Santiago Principles”», Outubro de 2008
O papel dos Fundos Soberanos na cedência de capital aos Bancos ocidentais foi fundamental para minimizar o risco sistémico decorrente de eventuais falências generalizadas, mas os mesmos acabaram por pagar um preço elevado por terem concentrado perto de metade dos seus investimentos em 2007 e 2008 num único sector de actividade. Os investidores particulares têm aqui um bom exemplo da importância de diversificar uma carteira de forma adequada por diferentes classes de activos, regiões geográficas e sectores de actividade.
Apesar das recentes contrariedades, tudo indica que os Fundos Soberanos vieram para ficar, sendo intervenientes cada vez mais importantes nos mercados financeiros, com um nível de transparência amplificado pelos “Princípios de Santiago”. O já referido estudo do DB Research estima que os seus activos possam atingir 7 triliões de dólares dentro de 10 anos, mais do dobro dos níveis actuais, ainda que tal esteja dependente da retoma do crescimento do comércio global.
Ficar atento ao comportamento de investidores com tão elevado poder de compra parece ser, desta forma, uma decisão avisada.
* Steffen Kern - «Sovereign wealth funds – state investments during the financial crisis», Deutsche Bank Research, Julho de 2009
** IWG International Working Group of Sovereign Wealth Funds - «Sovereign Wealth Funds – Generally Accepted Principles and Practices, “Santiago Principles”», Outubro de 2008




