O Facebook como modelo de negócio
O Facebook é o site em que os internautas passam mais tempo (de acordo com a Nielsen, cerca de 8 horas por mês em média, contra 2 horas no Google), partilhando uma enorme quantidade de informação pessoal. O que permite ao Facebook adaptar a publicidade aos gostos específicos de cada utilizador.
Ainda que, não seja legalmente permitida a venda de informação privada aos anunciantes, estes conseguem entrar em contato com um grupo de potenciais clientes selecionados pelas suas preferências, hábitos de consumo e recomendações aos amigos, que à partida estarão mais recetivos às suas propostas. O que representa um enorme potencial em termos de marketing.
Para uma empresa como o Facebook, que tem na publicidade a sua grande fonte de proveitos, esta é uma vantagem competitiva que outros sites não conseguem igualar.
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Crescimento já está a abrandar
O maior chamariz do Facebook para os investidores é claramente a taxa de crescimento das suas receitas, conseguida num contexto de crise económica, muito superior à média do mercado.
Contudo, o ritmo de crescimento tem vindo a desacelerar muito depressa, aproximando-se perigosamente do crescimento anualizado previsto para o Google ao longo dos próximos 5 anos, de 18%.
Período anual
terminado em
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Taxa de crescimento
receitas
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Dezembro 2010
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154%
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Dezembro 2011
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88%
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Março 2012
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45%
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Existe um limite natural para a expansão do número de utilizadores do Facebook, que é a população global com acesso à internet (2,1 mil milhões de pessoas). Destes, cerca de 500 milhões não têm acesso ao Facebook por estar bloqueado pelo Governo (China, Coreia Norte, Irão e Síria), o que deixa um potencial efetivo a curto prazo de 1,6 mil milhões de utilizadores.
Por outro lado, a popularidade de uma rede social pode ser volátil, como foi o caso do MySpace, comprado em 2005 pela News Corp por 580 milhões de dólares e vendido em 2011 por apenas 35 milhões. Note-se que, para além da concorrência direta do Google+, o Facebook enfrenta também o forte peso do LinkedIn na esfera de contactos profissionais.
Face a estas ameaças, o Facebook está pressionado a fidelizar cada vez mais os utilizadores, procurando maximizar o tempo que estes passam no site (o qual aumentou em média 14% no último ano). É neste sentido que têm sido introduzidas novas funcionalidades como o Timeline, que permite aos utilizadores carregarem a história da sua vida.
Dependência do mercado publicitário
Desde 2009, o Facebook reduziu a dependência do mercado publicitário, cujo peso nas receitas totais caíu de 95% para 82% no 1º trimestre 2012. Cerca de 18% já são provenientes de comissões por pagamentos no site, em jogos como o FarmVille ou outros aplicativos.
No entanto, tem vindo a crescer a convicção de que o investimento publicitário no Facebook é pouco eficaz, sendo difícil medir o impacto das campanhas, apesar das métricas que são disponibilizadas aos anunciantes.
Numa sondagem da AP/CNBC, 57% dos entrevistados afirmaram que nunca “clicam” em anúncios no Facebook. E a General Motors, um dos 5 maiores anunciantes mundiais, informou recentemente que irá suspender a sua publicidade no Facebook (cerca de 10 milhões de dólares em 2011), devido ao baixo impacto nas vendas. A empresa irá concentrar-se em melhorar a sua página para fãs, que tem custos anuais de 30 milhões de dólares para a GM, mas sem ganhos para o Facebook.
Outro indicador preocupante é que o preço médio por anúncio estagnou no 1º trimestre de 2012, continuando a ser largamente inferior ao do Google. Os anúncios no Google parecem ser mais eficazes, já que são apresentados quando as pessoas procuram algo específico, e não quando procuram apenas socializar.
Também negativas são as preocupações sobre a privacidade no Facebook. Qualquer endurecimento da legislação neste aspeto poderá tornar mais difícil a utilização de dados pessoais para efeitos publicitários. Por exemplo, poderá ser exigida a permissão expressa dos internautas para a utilização dos seus dados, em vez desta ser concedida por default, tendo que haver um pedido expresso para proteger os dados. O regulador norte-americano Federal Trade Commission já forçou o Facebook a efetuar nos próximos 20 anos uma auditoria externa bianual sobre a sua política e procedimentos de privacidade.
Uma forma de fazer crescer as receitas, fora do mercado publicitário, é a aposta em serviços de pagamento online, baseados no Facebook Credits, que poderão permitir competir com o PayPal (detido pelo EBay), o qual regista receitas anuais de 4,4 mil milhões de dólares. Outra área promissora é o ‘Social Commerce’, a compra de bens e serviços através do Facebook, tirando partido do poder das recomendações de amigos.
Aumento do acesso por dispositivos móveis
O forte aumento da internet móvel, através dos smartphones e dos tablets, é um dos maiores desafios para o Facebook, dado que as suas receitas nesses dispositivos ainda são nulas. E mais de metade (488 milhões) dos seus utilizadores já acedem desta forma ao site. O aplicativo do Facebook é o mais popular nas plataformas Apple e Android, de acordo com a Nielsen.
O ecrã destes dispositivos é normalmente demasiado pequeno para que a inclusão de publicidade não seja considerada intrusiva. Pelo que o Facebook, com raízes na era dos PC, terá que ser muito criativo na abordagem a este desafio: como introduzir publicidade sem piorar a experiência de utilização?
O primeiro passo, em março de 2012, foi a introdução de histórias patrocinadas no ‘feed’ de notícias dos utilizadores móveis. O segundo, no mês seguinte, foi a aquisição do programa de partilha de fotos Instagram. Mas, o sucesso destas iniciativas é ainda incerto.
Crescimento dos custos
Até agora, o Facebook tem conseguido crescer com custos relativamente baixos. A título de exemplo, tem apenas 3.200 empregados, cerca de 10 vezes menos que o Google, o seu principal concorrente. Não surpreende que tenha registado em 2011 uma margem invejável de 47%, o que compara com 31% no Google.
A era de crescimento “barato” parece ter terminado. A margem apresentada para o 1º trimestre de 2012 foi já de “apenas” 36%. Os custos quase duplicaram no último ano, de 343 para 677 milhões de dólares, enquanto as vendas só cresceram 45%.
Uma das áreas em que a empresa mais tem investido é na aquisição de patentes que a protejam de litígios ao nível da propriedade intelectual, como foi recentemente o caso da Yahoo. O Facebook comprou recentemente 650 patentes à Microsoft e 750 patentes à IBM.
Outra área em que terá que investir é no aumento de capacidade dos ‘data centres’, bem como no aumento do número de empregados.
À medida que se vai tornando um monopólio natural, poderão também surgir no futuro ações dispendiosas de anti-trust, por parte das autoridades de regulação, como já aconteceu com a Microsoft, devido à sua posição dominante no sistema operativo para PC.
Será o Facebook um bom investimento?
No passado dia 18 de maio, as ações do Facebook foram finalmente cotadas no Nasdaq (no ActivoBank, podem ser negociadas em “Investir”, introduzindo o ticker “FB” na barra inteligente, visível no inferior do ecrã, em “Pesquisar Título ou Fundo”).
Foram oferecidas 421,2 milhões de ações (25% acima da quantidade inicialmente prevista), a um preço de 38 dólares, que ficou no limite superior do intervalo previsto (ele próprio já revisto em alta uns dias antes da OPV). O valor total conseguido foi, assim, de 16 mil milhões de dólares, tornando-a na 3ª maior OPV da história nos EUA, depois das operações da Visa (2008) e General Motors (2010). A título de comparação, a OPV da Google “rendeu” menos de 2 mil milhões de dólares em 2004.
Depois dos Bancos colocadores terem conseguido “segurar” a cotação nos 38 dólares no dia de estreia, tal já não aconteceu no 2º dia de negociação, em que a cotação corrigiu 11% face ao fecho anterior.
Parte da “culpa” para a estreia pouco auspiciosa foi atribuída ao excesso de ações oferecidas, que levou muitos investidores a ficarem com mais ações do que tinham contado, “despejando-as” no mercado. E o excesso de oferta pode repetir-se no futuro próximo, quando terminarem os períodos em que os investidores iniciais estão impedidos de vender as ações.
Mas, talvez o preço de estreia tenha também sido algo ambicioso, maximizando os lucros para os fundadores e investidores iniciais, deixando pouco “em cima da mesa” para ser ganho no imediato.
A verdade é que as ações do Facebook haviam registado uma forte valorização nos 4 anos anteriores, em mercados privados como o SharesPost e o SecondMarket, apenas acessíveis a investidores profissionais, possibilitando aos empregados e fundadores venderem ações antes das OPV.
Quando a empresa chegou ao mercado a 38 dólares, já tinha valorizado quase 1000% nos anos anteriores. Mesmo depois da recente correção, o seu valor de mercado é superior ao de 90% das empresas incluídas no índice S&P 500, incluindo a McDonalds, a Disney ou a Boeing, empresas com décadas de história e modelos de negócio consolidados.
Mês
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Cotação SecondMarket
(USD)
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Abril 2008
|
3,5
|
Abril 2009
|
1,11
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Abril 2010
|
9,82
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Abril 2011
|
31,46
|
Abril 2012
|
42,72
|
| Fonte:
SecondMarket Preço médio ponderado mensal, ajustado por stock splits |
|
O valor de qualquer empresa depende essencialmente das expectativas de resultados futuros. O atual valor de mercado do Facebook reflete expectativas de crescimento muito elevadas, alguns dirão mesmo que irrealistas.
Considerando um preço de 35 dólares por ação, o Facebook está valorizado a 70 vezes os resultados estimados para 2012 (0,50 dólares por ação) e a 18 vezes as vendas estimadas. Em comparação, o valor de mercado da ação Google, o seu concorrente mais direto, representa menos de 15 vezes a estimativa de lucros para 2012, e cerca de 6 vezes as suas vendas estimadas.
Ou seja, o Facebook terá que crescer significativamente mais que o Google ao longo dos próximos anos para que se justifique o preço atual. E, como vimos, existem diversos riscos no horizonte que podem impedir que tal aconteça.
A generalidade das empresas ligadas a redes sociais que foram recentemente cotadas, como a Groupon, Zynga ou Yandex, estão abaixo do preço a que foram cotadas, indiciando alguma desilusão dos investidores em relação à capacidade destas empresas terem um crescimento de resultados que justifique o elevado preço inicial. A principal exceção, até agora, foi o LinkedIn, que valorizou 115% desde a sua estreia em bolsa há um ano atrás.
Para finalizar
A euforia em torno da OPV do Facebook, entretanto algo “arrefecida”, deve-se à atual escassez de boas oportunidades de investimento em todo o mundo, de empresas que estejam a crescer fortemente os seus resultados num contexto de crise. E, o Facebook é seguramente uma dessas empresas.
Contudo, nem sempre uma boa empresa é um bom investimento. O mercado incorpora rapidamente todas as boas notícias no preço da ação, pelo que é a capacidade de uma empresa surpreender pela positiva que acaba por ser decisiva no sucesso de um investimento.
Os investidores estão constantemente à
procura do próximo Google, cujas ações valorizaram 600% desde a OPV de 2004,
porque conseguiu criar um modelo de negócio único, mantendo a capacidade de
inovar e de superar consistentemente as expectativas do mercado. Conseguirá o
Facebook seguir-lhe as pisadas, ao mesmo tempo que concretiza a sua “missão
social”?
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