O Modelo das Vantagens Comparativas de David Ricardo
Exposto no século XIX por David Ricardo, o princípio das vantagens comparativas visa demonstrar a superioridade da livre-troca sobre isolamento. Enuncia-se da seguinte maneira: Os países ganham com a troca se se especializarem na produção do(s) bem(s) com o(s) custo(s) de produção relativo(s) mais baixo(s). Justificaremos o princípio a partir de um exemplo simples.
Leia todo o principio detalhado do Modelo de David Ricardo, também conhecido por Modelo Ricardiano.
Dois países em isolamento
Suponhamos que a França (F) e a Itália (I) produzem dois bens, o trigo e os automóveis, graças a um único factor primário, o trabalho. Este último circula livremente entre o ramo «trigo» e o ramo «automóvel», no interior de cada país mas não sai das fronteiras. Para produzir uma unidade de trigo, F utiliza duas unidades do seu trabalho e I cinco unidades. Para os automóveis, os custos unitários são, respectivamente, três em França e quatro em Itália. F dispõe de seis mil unidades de trabalho e I de dez mil unidades. Repartindo diferentemente o seu stock de trabalho entre os dois ramos, F pode obter várias combinações de bens produzidos; o mesmo se passa com I.
Para compreender como são obtidos os elementos do Quadro 1, tomar-se-á um exemplo.
Para produzir 750 unidades de trigo F utiliza 2 x 750 = 1500 unidades de trabalho. Como F dispõe ao todo de 6000 unidades de trabalho, resta-lhe 4500 para produzir automóveis. Cada automóvel necessita de três unidades de trabalho, produz 45°0 = 1500 automóveis.
Por conseguinte, à produção de 750 unidades de trigo por F, corresponde uma produção de 1500 automóveis. As quantidades produtíveis em cada país são representadas pelos segmentos AB e CO da Figura 1. Esses segmentos têm uma inclinação negativa pois que todo o aumento da produção de um bem necessita de renunciar à produção do outro.
Em isolamento, os bens trocam-se de acordo com os seus custos. Em França para obter um automóvel é necessário pagar += 1,5 unidade de trigo, visto que um automóvel custa três unidades · de trabalho, enquanto uma unidade de trigo apenas custa duas.
Da mesma maneira o preço de um automóvel é igual a + = 0,8 unidade de trigo.
O rendimento nacional em F, avaliado em trigo, é igual à quantidade máxima produtível de trigo por F, ou seja, 3000 unidades de trigo. Oa mesma maneira, o rendimento nacional de I, avaliada em trigo, é igual a 2000 unidades de trigo.
.Em isolamento, o trabalho reparte-se entre os dois ramos de maneira que os consumidores de cada país encontrem no mercado, as quantidades necessárias para satisfazer as suas necessidades. Estas dependem do rendimento nacional, do preço de um bem em relação a outro e de tal maneira que os consumidores distribuem
o rendimento entre os dois bens.
Suponhamos que os consumidores franceses consagram 75 % do rendimento ao trigo e 25 % aos automóveis, e que os consumidores italianos têm o comportamento inverso: 25 %para o trigo e 75 %para os automóveis. O rendimento nacional da França avaliada em trigo valendo 3000 unidades de trigo, a procura dos consumidores franceses é de 0,75 x 3000 = 2250 unidades de trigo. Esta procura é satisfeita pelos produtores nacionais, dado que se está em isolamento. Corresponde-Ihe uma procura (e uma produção) de 500 automóveis. Por razões semelhantes, a procura de trigo pelos consumidores italianos eleva-se a 0,25 x 2000 =500 unidades de trigo e a procura dos automóveis a 1875 automóveis.
A troca entre dois países
Suponhamos que os bens passam a circular livremente entre os dois países. O preço da troca internacional é o mesmo que o preço da troca no interior de cada país, dado não existir nenhum obstáculo (direitos alfandegários) nem qualquer custo de transporte. O preço que se vai estabelecer é o que equilibra os mercados, isto é que assegura a igualdade entre a oferta e a procura de trigo e entre a oferta e a procura de automóveis.
Para compreender a que nível o preço dos automóveis em termos de trigo se vai fixar, é necessário partir dos preços de «isolamento». Sabe-se que estes são determinados pelos custos relativos do trabalho (cf. 1.1.) No exemplo aqui desenvolvido, a França suporta um custo relativo em trabalho inferior para o trigo e a Itália suporta um custo relativamente inferior em trabalho para os automóveis.
Estes custos relativos caracterizam a vantagem de cada: país em relação ao outro. Assim, dir-se-á que a França possui uma vantagem comparativa para o trigo e que a Itália possui uma vantagem comparativa para os automóveis. Cada país tem uma vantagem comparativa em relação ao outro, mas a França tem uma vantagem absoluta nos dois ramos, dados os seus custos de produção serem inferiores, nos dois ramos aos da Itália. O custo relativo de um país também é igual à taxa de substituição na produção. É, com efeito, igual à quantidade de um bem à qual se renuncia, quando se quer produzir uma unidade de um outro bem. Assim, em França, para produzir um automóvel suplementar, é necessário renunciar a 1,5 unidades de trigo. Na Itália, para produzir um automóvel suplementar, é necessário abandonar a produção de 0,8 unidades de trigo.
O preço de equilíbrio
Os dois países não terão interesse na troca se os corisumidores não tiverem um ganho em relação ao isolamento. Torna-se assim necessário que o preço relativo do automóvel em termos de trigo que regula as trocas seja mais interessante que as taxas de substituição na produção de cada parceiro. Cada preço dá automóvel em termos de trigo compreendido entre 0,8 e 1,5 corresponde a um tal ganho. Com efeito, a venda pela Itália de um automóvel vai-lhe render mais de 0,8 de unidades de trigo, enquanto que em isolamento1quando esse país renunciava a produzir um automóvel, não obtinha, em contrapartida, mais que 0,8 unidades de trigo. A aquisição desse automóvel pela França vai-lhe custar menos de uma unidade e meia de trigo, preço que ela teria tido de suportar se tivesse decidido ficar em isolamento e, logo, de a produzir ela própria. As duas partes ficam, pois, a ganhar se se conseguirem entender sobre determinado preço e se cada uma se especializar na produção do bem em que o país dispõe de uma vantagem comparativa. Neste caso, a França deve-se especializar no trigo e a Itália nos automóveis. Estas especializações devem ser totais, visto que o raciocínio que acaba de ser feito se aplica a todas as unidades produzidas.
O preço de equilíbrio p do automóvel em termos de trigo deve permitir aos consumidores dos dois países satisfazer a sua procura a esse preço. Suponhamos que ele se fixe entre 0,8 e 1,5. A França especializa-se totalmente em trigo: produz 3000 unidades. A Itália especializa-se totalmente em automóveis: produz 2500. O rendimento nacional da França avaliada em trigo, vale, como em isolamento, 3000 unidades de trigo e a procura dos seus consumidores pelo trigo é de 0,75 x 3000 = 2250 unidades de trigo. Pode então exportar para a Itália .3000 -2250 = 750 unidades de trigo. A receita nacional da Itália é igual àsua produção avaliada em trigo, ou seja, 2500 p unidades de trigo. A procura do trigo por parte dos seus consumidores vale 0,25 x 2500 P = 625 P unidades de trigo. Como a Itália não produz trigo, satisfaz esta procura através de importações vindas de França. O preço p que assegura o equilíbrio do mercado de trigo é tal que as exportações de trigo pela França (750 p) igualam as importações de trigo pela Itália (625 p). O preço de equilíbrio do automóvel em termos de trigo, p, vale, Pois, 750 = 1,2 unidades de trigo.
Trocas e ganhos
A este preço de equilíbrio, o rendimento nacional de Itália, avaliado em trigo, vale 2500 x p = 2500 x 1,2 = 3000 unidades de trigo. A sua procura de automóveis é igual a 0,75 x rendimento nacional avaliada em automóveis = 0,75 x rendimento nacional avaliada em trigo / 1,2 =0,75 x 3000 / 1,2 =1875 automóveis. Como produz 2500 automóveis, restam 2500 -1875 = 625 automóveis exportadas para França. A procura de importação de automóveis desta, a este preço, é exactamente de 625.
Mais recustos:
Um video bem giro da Fonft Economia que explica o Modelo Ricardiano.
TED Talk onde Matt Ridley fala da vantagem do modelo Ricardiano (entre outras coisas).